Edição 02
Set/Out
2023

Mateus Aleluia

A bênção, mestre!

Na vida não existe um sem dois

“Se quiser lutar contra o mar, você se cansa e o mar engole você. Tem que ser assim: cansou, você se abandona e boia. O mar vai te conduzindo, te dando vida até você encontrar o teu caminho”. Nosso caminho nos levou a Cachoeira (116km de Salvador) onde, numa manhã fria e chuvosa dos primeiros dias de junho, na Vila de Belém, Mateus Aleluia recebeu a equipe da VivaBahia em sua casa para uma conversa cheia de emoção, música, sabedoria e ensinamentos sobre o Recôncavo, seus mistérios e seus segredos.

Antes do começo da entrevista, ele batucou na mesa um ponto de candomblé e deixou o ambiente bem leve, tranquilo. A chuva deu uma trégua e o sol lançou um tímido raio de luz sobre seu quintal, além da sua varanda. Como se todos nós estivéssemos flutuando numa onda de uma só frequência conduzida por sua voz poderosa e ao mesmo tempo suave, mergulhados na sabedoria e no encantamento de um mestre.

A música entra na vida antes do nascimento

Eu acredito que antes de nascer. Isso não aconteceu somente comigo, quero crer.  A grande sinfonia é a movimentação dos elementos da terra, do ar, do fogo, tudo em volta é uma grande sinfonia. O vento e seu som são os violinos; a terra, uma grande percussão; os galhos batendo um no outro, a água nos rios, tudo é uma sinfonia.

A impressão que eu tenho é que antes de tudo houve a música. Então, a música é inerente a todo ser humano. Ele diga ou tenha consciência de que gosta da música, ou não, ele gosta. Ele tenha a consciência de que ele é música, foi formado através disto, ou não. Então, para mim, a música entrou na minha vida assim como entrou na vida de todos os seres viventes que nasceram aqui nesse planeta. Antes de tudo, houve a música. Ela está dentro da gente. A gente apenas deixou isso fluir e flui.

O Vale do Paraguaçu é um útero entre Obatalá e Odudua

Foto: Vinicius Xavier

Eu nasci, aqui, no Vale do Paraguaçu. Cachoeira de um lado, São Félix do outro e o rio Paraguaçu passando no meio. É como se fosse uma grande cabaça, é um vale. E mitologicamente para os iorubanos, a parte de cima da cabaça seria Obatalá, que é o céu. E a parte de baixo da cabaça seria Odudua, a terra. Aqui, nós fomos gestados. E, se   viajar um pouquinho, vai ver que isso se parece com o útero feminino.

É o útero e a parte de cima está protegida. E dentro desse útero natural, que é o Vale do Paraguaçu, tem o líquido amniótico que é o rio Paraguaçu, onde todos nós fomos gestados. Por quem ou por quê? Aí eu falo sempre de um princípio: é o incógnito, o inacessível, o inexplicável. Como é que isso aconteceu? Antes de ser espermatozoide, uma célula microscópica, éramos o quê? Não sabemos.

Dormir ao som do tambor e acordar com sino da igreja

Na hora que íamos dormir, na minha época, dormíamos ninados pelos toques do candomblé, que nessa época era proibido, perseguido pela polícia. Então, eles tocavam, na calada da noite, o ritmo do tambor. Éramos ninados dessa maneira, todos ouvindo isso, fosse do candomblé ou não. Tivéssemos, nós e
os nossos pais, a cultura do candomblé ou não. Mas nós éramos ninados dentro dessa rítmica.

Quando o dia amanhecia, éramos despertados pelo toque do sino da Igreja Católica, mostrando que não existe um sem dois. Não havia poluição sonora, o sino que nos acordava entrava pelas casas. Dormíamos com os orixás e acordavávamos com Jesus. Interessante, esse tema. Um dia, um produtor musical me mostrou que o sino da igreja da Matriz toca no ritmo de ijexá. Então, nós fomos ensinados dentro do princípio afro barroco. O barroco, quando você estava desperto, consciente, o seu eu. O afro, quando estava adormecido, entrava pelo seu inconsciente, e aquilo se diluía para o mais profundo que existe em cada um de nós.

A diferença entre culto e cultura. O religare

Sempre argumento o princípio de que a cultura nasce do culto. Não haveria cultura se não houvesse um culto para dar disciplina de hábitos. O culto, para nós, pelo menos para mim, é a forma quando você transcende, é o religare, como se diz em latim. Quando a gente se religa ou pensa que se religou.

Esse é o culto, aquilo que não acontece a toda hora, quando a gente quer. É a parte que o homem sai do seu eu social e vai em busca daquela parte que ele desconhece totalmente e que ele chama de Deus, uma força realmente fenomenal, uma força física, uma usina de energia que a gente desconhece. Para nós, esse é o culto, é quando se vai à procura desta força. E você tem uma série de hábitos para fazer parte desse culto. E é essa série de hábitos que se transforma numa cultura. Então, para nós, o samba é uma forma de cultura onde você quer expressar seu culto.

Foto: Divulgação

Como o candomblé pegou Vinicius e João Gilberto

Eu me lembro de uma música de Vinicius de Moraes. Vejam só, uma pessoa que não pertencia a esse universo e, de repente, vai de uma forma tão profunda nesse universo, não sei se consciente ou inconscientemente, não sei se pela cultura ou pelo culto.

É quando ele diz (cantando): “Fazer samba é uma forma de oração/ Pois o samba nasceu foi na Bahia/ E se hoje ele é branco na poesia/ Ele é negro demais no coração”… Ele fala branco não é como etnia, era como domínio, digamos assim, geopolítico. E o coração é a parte da alma que vai lhe dar os elementos para você ter uma cultura também. Mas a parte primeira, é o coração. Ele tem um grande papel. É quando a gente deixa ele falar que nos tornamos humanos.  Ilé Ifè (casa do amor, cidade sagrada dos iorubás na Nigéria) quer dizer coração. Muxima, em Angola, também quer dizer coração em quimbundo, um lugar sagrado.

Vinicius faz a junção de tudo, faz a inclusão de tudo de uma forma totalmente teosófica. Não é o intelecto dele que falou. É por isso que eu digo a vocês, aquilo pegou ele. Ele não se deixou envolver, o candomblé o envolveu. (rindo) Olhe só, João Gilberto… eu nunca iria pensar que ele ia gravar Cordeiro de Nanã. Ele não nos conhecia, não havia amizade, nada. Ele gravou porque gostou, entendeu? Eu disse: olha só, João Gilberto, dando lição para gente daquilo que a gente julgava que era nosso. Então, meu amigo, você tem que estar aberto para receber a lição de onde ela vem. Perceber a sabedoria, venha de onde vier.

Como chegar à África com a Bahia no coração

Olha, tem até uma música que eu gravei, ela está no meu penúltimo disco, o Fogueira Doce, que conta o que senti quando cheguei na África. A letra é mais ou menos assim:  Era quarta-feira,/ Sete, oitenta e três, de dezembro / Zagueava ao vento / Parei quando eu vi Zambi / Daomeano, iorubano,/ Congolês, angolano, mbantu,/ Hauçá, muçulmano / De tudo isso eu sou / Kalunga, Gumba, Amambata. 

Zambi é Deus na linguagem quimbundo, a linguagem que se fala em Luanda.

E quando vi Zambi, vi que sou tudo isso. Você entra num transe sem estar em transe. E pensa: não estou em transe, não, mas já estava em transe. Aí, eu pergunto: congolês, hauçá, muçulmano… Quem é?  Quando eu perguntei isso, eu não soube explicar.

Aí eu me ponho como baiano, o baiano que veio da Bahia, um assimilado urbano, que assimilou tudo, como diz a segunda parte da canção: Eu, um cidadão da senzala/ Um assimilado urbano/ Em terra de N’gola/Kiluanji/ Mandume, Shaka Zulu, Mali/ Me senti na Bahia/ Cultural explosão/Um filho da Bahia/ É a África de coração. 

É isso que eu senti quando cheguei lá. Cada lugar que eu olhava, via um conhecido. Pensei: parece que estou em Cachoeira, estou em Salvador. Parece muito, muito. Tanto vendo gente negra como branca, eu olhava e identificava os amigos, meus parentes.

E se você não tomar cuidado, você xinguila (entra em transe). É quando você recebe um espírito sem perceber. Porque nem sempre as pessoas que se manifestam têm consciência dessa manifestação. Eu cheguei à conclusão que na maior parte das manifestações as pessoas nem sabem que estão manifestadas.

Um livre pensador de mim

Hoje em dia, eu digo que o meu santo é o meu santo.

Essa força que me põe vivo. Já me disseram que eu era filho d’Ogum, de Oxalá, de Oxum e de Exu. Que eu tinha Ogum como santo de cabeça e tinha esses adjuntos.

 Hoje, eu sou um livre pensador. Eu mergulho e deixo que deixo me levar, porque se eu lutar contra o mar, ele me afoga. Eu não tenho força para ele.

Brasil nasceu na Bahia com i

Foto: João Lins
Foto: João Lins

Acho que o Brasil nasceu para ser, e quem nasce para ser já é. O verbo está na sua forma mais conclusiva. A gente é que ainda não acreditou nisso. Eu costumo dizer que eu nasci no estado da Bahia com H, mas que, na realidade, a nossa cultura vem da Bahia com I.

A Baía de Todos-os-Santos, de todos os deuses, de todas as religiões, de todas as vontades. Todo o estado da Bahia, todos os homens da Bahia. Nós, aqui no Recôncavo, somos o fundo da baía, o prolongamento da baía. E quando aqui nós chegamos, já existia, no fundo da baía, uma cultura fortíssima, que era do dono da terra, dos indígenas, dos autóctones.

Tudo o que veio para cá é hospedado nessa cultura do dono da terra. O que eu vejo é isso. Nós temos todo um formato de inclusão, que às vezes a gente não entende. A gente tem que lutar por essa inclusão de uma forma irrestrita.

O homem tem moral, a natureza, segredos

Faço 80 anos daqui a dois meses. Dói aqui, dói ali. Não é tão fácil assim não. Mas também tem o seu lado positivo. Quando você sabe que precisa desse lado positivo, é que você tem mais luz, mais percepção.

Você não passa pelas coisas só de alô, como vai? Você já não fica correndo no tempo, assim à toa, parecendo barata no baygon. Você já para pra ver, e isso se transforma na sua juventude porque você continua observando. Eu fico olhando aqui para as árvores, pra laranja, pro limão do vizinho. E olho a natureza. A natureza tem seus segredos. O homem é que tem moral, a natureza tem segredo.

3 Responses

  1. Belíssima explicação sobre espiritualidade o o sentir lá dentro, meu amigo! Meu mestre, Mateus Aleluia. Quanta sabedoria você adquiriu ao longo da sua existência por onde andou, passou e morou. Começou em Cachoeira no recôncavo, cantando no coral, sentindo e observando as badaladas da nossa matriz. Os vários atabaques chorando, sorrindo ou cantando comemorando com os seus santos e orixás. Você voou e nas suas chegadas e paradas, você foi sentindo a presença dos santos, sons, sentimentos surgindo. Aprendendo com seu eu e respondendo com sua sabedoria. Vivi cantando, compondo e aprendendo e anotando por onde passa… Hoje você é um mestre que sabe as respostas dos elementos da terra, da natureza e com sua espiritualidade forte para nos ensinar. Só podia ser filho de Cachoeira, dos santos e orixás daqui e de todos os lugares onde passou. Sua existência são bênçãos divinas para todos nós.Conhecedor das nossas raizes africanas, as lutas e sofrimentos dos nossos povos. Um beijo e abraços na doce Rosinha e todos. 🙏🏼🌊🌷🧜🏼‍♀️🎁💧💐🤞🏽😘📖🧜🏼‍♀️🌊👍🏽🍀🤣💮👏🏽🏡🌶️😘

  2. Maravilha e pllena ter a opirtunidade de conhecer Mateus Aleluia.
    Fico a me perguntar porq. tão pouco acesso a algo tão transcendental.
    Acorda SSA.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Leia Também

Uma das visões que mais encantam os visitantes no Raso da Catarina são as cores fortes dos pássaros da espécie arara-azul-de-lear
O tradicional caruru de São Cosme dos baianos é servido primeiro para sete crianças que comem juntas, ao mesmo tempo, com as mãos
Santo Antônio, São João, São Pedro e São Paulo, também celebrados no mês de junho, são os patronos das tradicionais Festas Juninas, espalhadas Brasil afora
Conheça o olhar de uma inglesa nas lutas pela Independência. A escritora inglesa e desenhista, escreveu sobre o país que visitou.