Edição 02
Set/Out
2023

Juarez Paraíso

Autorretrato, 1983, litogravura

A bênção, mestre!

O compromisso da arte com a vida

Claudius Portugal

O artista e uma escultura
O artista e uma escultura

Juarez Marialva Tito Martins Paraíso, nascido sob o signo de Virgem, com o santo em Oxóssi, que com a sua arte investiu pela pesquisa formal, temática, técnica, abarcando a quase totalidade das modalidades de expressão das artes plásticas, do desenho à gravura, pintura, escultura, arte mural, objeto, instalações, artes gráficas, ilustração, fotografia, cenários e figurinos, decoração do carnaval, passeios e calçadas, gradis, arte por computador.

Com poucas individuais, ao lado disso, mais de duzentas exposições coletivas, na Bahia, no Brasil, mundo afora. Se a sua trajetória são poucas individuais, é porque não vê sentido neste tipo de exposição.

Sua ênfase nos trabalhos coletivos, basicamente só expõe em coletivas, que é fruto de um pensamento social e cultural, que o leva a desejar que sejam abertos caminhos para todos, o que o fez e faz brigar para que trabalhos provenientes do Estado sejam realizados sempre através de concursos públicos. 

Com a sua presença ativa na vida cultural e a defesa intransigente da liberdade de expressão, professor ou artista, Juarez tratou ambos como um oficio de conhecimento, de vida, de existência, mesmo que o preço a pagar por seus princípios viesse a ser alto. Juarez faz da arte e da sua arte um só compromisso. O da vida. O que o leva a empreender novos caminhos, produzindo, organizando, instigando a Bahia. Juarez vive intensamente a vida e as artes.

Um artista que vai além do instrumental de sua arte, tal como o lápis ou o pincel, ou o buril, para melhor desenvolvimento de suas ideias, buscando, nessas imagens, a plasticidade que a sua criação exige.

O olhar encantado do menino

Tudo começa na Chapada Diamantina, onde está o pequeno lugarejo de Arapiranga, município de Minas de Rio de Contas, em 3 de setembro de 1934, às doze horas, ainda hoje um lugarejo de traçado antigo, praças e ruas amplas, igrejas barrocas, monumentos públicos e religiosos em pedra, o casario em adobe.

Rio de Contas fora aonde seu pai, Isaltino Concécio Paraíso, passou a residir com a sua mulher, Eulália Martins Alves Paraíso, e a trabalhar como professor. Perseguido politicamente, o pai perde o emprego, muda de cidade, e a família passa a compartilhar uma casa com dois quartos, morando de favor, no bairro de Roma, na Calçada, Salvador.

Ia fazer nove anos, e se encanta pelo gelado do picolé, a velocidade dos carros, a altura dos prédios, e imediatamente pelo que vinha a ser a maior novidade para ele: as histórias em quadrinhos que o gibi publicava.

Na adolescência, a educação formal chega ao término, com o ginásio concluído no Instituto Bahiano de Ensino, sob direção do professor Hugo Baltazar da Silveira, que mesmo ele tendo 16 anos, por seu talento, convida-o para lecionar Desenho e Trabalhos Manuais no Instituto.

Após ter feito todos os cursos do Instituto Baiano de Belas Artes, desde os quinze anos estuda desenho e modelagem nos cursos noturnos, vindo a aprender técnicas de reprodução pelos cânones clássicos, copiando a arte greco-romana, presta vestibular para o curso de pintura da Escola de Belas Artes.

Aprovado, seguindo os conselhos do pai – “ser artista não é futuro” –, passa a estudar no Instituto Visconde de Cayru, onde conclui o curso de técnico em contabilidade. Aqui, vale uma ressalva: o diploma que nunca foi buscar.

Os desenhos acadêmicos de sala de aula, 1963

O aluno vira professor

Guache e nanquim, a influência dos quadrinhos, 197

O futuro estava adiante. Aos dezessete anos, ingressa na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia. É aluno de Mendonça Filho, fundamental como mestre e protetor, por Juarez considerado “um pai espiritual”, e até então, o líder absoluto da Escola de Belas Artes, que o trata com dedicação tão especial que, entre tantas, Mendonça Filho cede uma sala nos fundos da própria escola para sua moradia.

Durante o período de aluno, ainda realizando trabalhos realistas, e existindo vários Salões, inscreve-se em muitos deles, sendo premiado ano após ano, de 1952 a 56, em desenho e pintura.

Era o melhor aluno do corpo docente, e isto lhe dá direito a escolher se deseja uma bolsa de estudos de três anos – dois em Paris e um na Itália –, ou o cargo de professor voluntário, contratado pela Universidade. Não poderia ter uma outra escolha. A realidade sempre determinou o seu futuro; e ensinar na Universidade era, na época, uma mudança de vida, de prestígio social, respeito, e uma remuneração digna.

Seis anos depois de entrar na Escola de Belas Artes torna-se professor regente em desenho artístico e modelo vivo. Mas ser professor também não o retira de continuar aluno. Matricula-se nos cursos de escultura e de gravura. Despontava com esses estudos, a partir dali, o grande gravador, técnica que imprimiu notável destaque à sua carreira.

Durante a década de 60, dedica-se à produção de xilogravuras, em preto e branco, de grandes dimensões. Suas obas foram expostas, em 59, no VII Salão Nacional de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Atua como crítico de artes plásticas no jornal Diário de Notícias. Entre 1966 e 1968, projeta e realiza as duas bienais da Bahia. A partir de 1975, dedica-se a experiências com fotografia, desenho, tapeçaria e murais.

Tendo o desenho como base, e o conhecimento como norte, busca ainda conhecer também a escultura e gravura. Nesta época, a produção de gravuras foi o forte da Escola, principalmente sob o comando de Mario Cravo Júnior e Hansen Bahia. Eram xilogravuras com qualidade e características próprias, devido ao uso da prensa de metal, que determinava um bom aproveitamento da matéria xilográfica, pela utilização do compensado, introduzido na arte da gravura por Calasans Neto.

Yemanjá, Condomínio Interlagos, Estrada do Coco, 1980
Yemanjá, Condomínio Interlagos, Estrada do Coco, 1980

O artista não para de criar

Com os olhos descobrindo novas imagens, a arte acadêmica e realista já não lhe oferece mais nenhum desafio. A arte moderna o fazia recomeçar. Buscava técnicas, buscava aprender, buscava no fazer o seu aprendizado. Chega o momento da desconstrução, de experiências neocubistas, do início de sua arte abstrata, que perdurou toda a década.

A internacionalização da arte moderna só aconteceu em definitivo quando a Bahia conheceu os principais artistas da arte moderna brasileira através das duas Bienais Nacionais de Artes Plásticas. Ajudou a organizar a I Bienal Nacional de Artes Plásticas da Bahia, em 1966, no Convento do Carmo. Liderou a criação da Associação dos Artistas Plásticos Modernos da Bahia, e durante anos e anos esteve à frente de exposições, feiras e festivais de arte, a participar ativamente de simpósios e debates.

Mural do Cine Arte II, Oxumaré, 1988. Destruído pela Igreja Renascer em Cristo
Mural do Cine Arte II, Oxumaré, 1988. Destruído pela Igreja Renascer em Cristo

Durante a década de 70, retorna ao figurativo. Mas o faz com uma carga surrealista e erótica. Os temas procuram suscitar a reflexão política e o combate aos preconceitos sexuais e religiosos. A partir da década de 90, dá início à produção de arte digital. É o mentor de descoberta dos poderosos softs já existentes para a manipulação fotográfica, a criação gráfica e a editoração de textos.

Mas a produção de desenhos, como estrutura, para outros gêneros ou modalidades de artes plásticas continuava a acontecer, como sempre fez, desde o início aos dias atuais. A tridimensionalidade ganha ainda mais em seus limites, atingindo, desta vez, toda uma cena urbana, o centro da cidade, ao efetuar a decoração de vários carnavais de Salvador no final dos anos 70.

Claudius Portugal é escritor

Solidário e solitário

Ao mestre, com carinho

“Juarez Paraíso é um artista solidário com a vida, com a luta do homem, com o tempo e o chão presentes, solidário com seu tempo, sua terra, seu povo, seus artistas – generoso, militante, solidário promotor de cultura, criador vário e inquieto, múltiplo, que não se parece com nenhum outro, solitário em sua criação”. Jorge Amado

Intelectuais, amigos e admiradores de Juarez Paraiso se uniram em uma campanha para reivindicar o tombamento das obras do mais importante artista plástico, professor e produtor cultural de sua geração na Bahia.

O grupo recolhe assinaturas através do site www.change.org/p/tombar-as-obras-do-artista-plástico-juarez-paraiso, para ser entregue ao Governo do Estado e à Prefeitura de Salvador.

Integram o grupo Marcia Magno, ex-diretora da Escola de Belas Artes e esposa de Juarez; Waldemar Silvestre e Angelica Borges, Angela Andrade; e o publicitário João Silva, responsável pela comunicação e criação da marca do projeto, cuja meta é alcançar 10 mil assinaturas.

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