Edição 02
Set/Out
2023

Paloma Amado

Entrevista

Voa, Paloma

Paloma Jorge Amado, única filha mulher de Jorge Amado e Zélia Gattai, criou-se na Bahia vendo milagres acontecerem nos terreiros de candomblé e nas ruas de Salvador. Nasceu em Praga, quando os pais estavam no exílio, mas é uma baiana nata, uma baiana retada, conhecedora profunda dos mistérios e dos encantamentos da terra de Mãe Senhora e Mãe Menininha. Escritora, cronista, reconhecida internacionalmente, excelente contadora de histórias, Paloma recebeu, para esta entrevista, a turma da VivaBahia em sua casa, com muita gentileza, bom humor e um delicioso munguzá de milho branco. A conversa que se seguiu foi uma viagem no tempo, na cultura e na história da Bahia.

VivaBahia!Em quem se transformou a menina que nasceu em Praga, filha de um casal tão famoso? Como você se vê hoje na sua formação pessoal, espiritual?

Foto: João Lins

Paloma – Quem é que eu sou? Sou uma brasileira, em primeiro lugar, e, para quem não sabe, quem nasce no exterior, filho de mãe e pai brasileiros, registrado no consulado, é considerado brasileiro nato. Quer dizer, o fato de eu ter nascido em Praga não significa que eu não seja brasileira nata. Nata, sem cidade, sem estado. Só brasileira. Por muito tempo, isso me aperreou muito, inclusive, em certo momento de minha vida, me aperreou demais, foi quando descobri o significado da palavra xenofobia.

VBEm que momento?

Paloma – Quando saí do Ministério da Educação e Cultura, na época do Eduardo Portela, fui convidada para assumir a Secretaria de Cultura do Maranhão. Fizeram uma campanha contra mim em toda a cidade de São Luís, com meu nome escrito assim: “Paloma Não”, o que significava que eu não podia ser secretária do Maranhão, porque não tinha nascido lá. E aí me disseram com todas as letras que eu não podia ser secretária no Maranhão.

Então, eu, por muito tempo, ainda pequenininha, quando me perguntavam o que eu era, eu respondia: “gringa”. Quer dizer, eu me sentia um pouco peixe fora d’água. Mas, na Bahia, eu fui acolhida desde menina.  A Bahia me resgatou totalmente, me dando um título de cidadã soteropolitana e depois título de cidadã ilheense. Agora sou duplamente baiana.

“Nunca deixei de acreditar nos milagres que eu via e de ter muita fé nos orixás”

VBMas voltando à questão inicial, que pessoa hoje você é espiritualmente?

Paloma – Eu nasci numa família ateia, pai e mãe que se consideravam ateus e os avós também. Aos oito anos de idade, conheci Mãe Senhora (famosa Ialorixá baiana, sacerdotisa do Ilê Axé Opô Afonjá). Morávamos no Rio de Janeiro, e ela foi nos visitar. Eu acho que eu nunca tinha vindo à Bahia. Mas o fato é que naquele dia houve uma conexão entre nós duas absolutamente imediata. Ela não era uma pessoa de fazer gracinha com ninguém, era uma pessoa até considerada bastante severa. Mas, por algum motivo que eu desconheço, ela se encantou por mim e eu me encantei por ela.

VBO encantamento de Mãe Senhora lhe levou ao candomblé?

Paloma – Vou contar uma coisa: no dia que Mãe Senhora foi lá em casa, teve um episódio muito engraçado. Meu irmão João, que é quatro anos mais velho que eu, era menino insuportável. Papai, então, chamou a mim e a ele, disse: “olha, vem aqui uma pessoa hoje, importantíssima, e eu quero todo respeito, comportamento absoluto, é uma pessoa religiosa, ela está no topo da religião dela no Brasil, é uma mãe de santo de candomblé, a maior de todas. Se fosse católica, seria o papa. Não é o papa, é a Mãe Senhora”.

Ele repetiu isso umas 20 vezes. Mãe Senhora chegou e eu esperava ver uma baiana, vestida tradicionalmente. Mas ela foi de civil, junto com Mãe Stella. Elas entraram, sentaram-se, quando veio meu irmão lá de dentro, todo lorde, e disse: “Sua Santidade aceita um guaraná?” E todo mundo caiu na gargalhada, ela, inclusive, que não parava de rir.

VBVoltando à sua iniciação…

Paloma – Quatro anos depois, nós voltamos para a Bahia e eu comecei a frequentar o candomblé, o Ilê Axé Opô Afonjá e, também, o terreiro de Mãe Menininha do Gantois. Nunca cheguei a fazer santo. A única pessoa que fez santo lá de casa foi Mariana, a minha filha mais velha e que mora em Brasília.

Mas presenciei milagres na Bahia, tanto dentro como fora do Candomblé, nas ruas de Salvador. Por exemplo, Vitorina, Mãe Pequena do Terreiro Bate Folha, era filha de Tempo (o orixá Kitembo, filho de Nzambi, o Deus Supremo da Nação Angola), era muito amiga nossa. Ela teve um derrame e ficou hemiplégica. Depois de alguns meses, fizeram uma festa pra ela e nos convidaram. Carybé e Nancy também foram. Na festa, tocaram para Tempo e o orixá baixou nela. E ela, que não saía sequer da cama, levantou-se e dançou, sem ninguém segurar, solta, rodopiando, fazendo misérias no salão.

Depois, no intervalo, ela veio nos cumprimentar e, quando chegou a Carybé, ela o pegou pelas pernas, rodopiou o terreiro todo e o colocou de volta no mesmo lugar em que estávamos. Nesse dia, perguntei pro papai: “você viu o mesmo que eu vi?” Ele respondeu: “claro, ela rodou com o Carybé no colo”. Eu, então, quis saber: “que explicação você me dá para isso?”. Ele disse: “nenhuma. Por que a gente tem que explicar os milagres? Os milagres acontecem e acabou-se. Você viu e foi o que aconteceu”.

No dia seguinte, Vitorina estava no hospital. Então, o que eu quero dizer é que, desde que eu vim morar na Bahia, nunca deixei de acreditar nos milagres que eu via e de ter muita fé nos orixás.

“Aprendi, vivendo na Bahia, com as coisas do povo. É o povo que dá isso pra gente”

VBQual é seu santo de devoção?

Paloma – A minha. É uma Iemanjá velhinha e Mãe Senhora me deu toda a explicação dela. Tinha uma moça no terreiro que recebia essa Iemanjá. Era uma mocinha novinha que quando recebia essa Iemanjá, ficava tão velhinha que tinha que ser carregada. Então, como nunca vi ninguém representando em candomblé, sempre vi as coisas acontecendo naturalmente, isso ficou bem dentro de mim.

Depois de um tempo, já mulher feita, mãe de filhos, numa família católica, me batizei e casei-me na Igreja aos 33 anos. Não me vinculei à Igreja Católica, mas a D. Timóteo Amoroso Anastásio, que era abade do Mosteiro de São Bento.

VBUma formação bem baiana…

Paloma – Tudo isso se junta: ter vivido na Bahia, durante a ditadura militar, ter estudado no Colégio Aplicação, que era uma escola pública, mas estava ali a nata da intelectualidade estudantil, com jovens professores aplicando novos métodos. Vivi, assim, um tempo absolutamente maravilhoso em Salvador. Tempo que a gente não saía do Teatro Vila Velha, das peças de cordel. A gente se sentia participante daquela coisa toda. Aprendi, vivendo na Bahia, com as coisas do povo. É o povo que dá isso pra gente.

VBVocê falou um pouco sobre como Jorge Amado via as mães de santo. Mas como era que as Mães de Santo viam Jorge Amado?

Paloma – Mãe Senhora e Mãe Menininha tinham papai como um irmão. E assim elas o tratavam diariamente, como meu irmão, meu querido, com muita intimidade. As meninas dos terreiros pediam bênção a papai, ele era muito querido. Quando papai fez 80 anos, fizeram muitas festas pra ele aqui na Bahia.

Naquela época, nós morávamos na Europa. Mariana, minha filha, estava na Itália. Todos nós viemos para as festas e Mariana tinha me pedido para ir ao Ilê Axé Opô Afonjá. Mãe Stella tinha acabado de assumir o terreiro. 

Jorge Amado, João Jorge, Zélia Gattai e Paloma / Foto: Acervo Zélia Gattai - Fund. Casa de Jorge Amado

Papai e Mãe Stella se respeitavam bastante, mas tinham uma dificuldade, porque ele defendia a miscigenação e acreditava que somente com a mistura acabaria o preconceito racial.

E ela era contra isso e contestava radicalmente com a autoridade de mãe de santo do terreiro. Mas, enfim, Mariana quis ir lá e Mãe Stella nos recebeu na porta e nem nos mandou entrar, que dirá jogar os búzios para Mariana. Eu fiquei muito incomodada com isso, e Mariana muito desolada.

VB E Mariana acabou fazendo o santo…

Paloma – Durante os festejos dos 80 anos de papai, teve uma linda festa pra ele no Gantois, já com Mãe Cleusa. Estava junto com papai e Mariana, quando Mãe Cleusa nos encontrou e pediu que levássemos Mariana, na quinta-feira seguinte, lá no terreiro. Olhou pro papai e disse: “Traga Oxóssi aqui quinta-feira”, porque papai era de Oxóssi e Mariana também.

Quando chegou no dia marcado, ela disse para Mariana: “vamos fazer sua cabeça. Oxóssi está querendo sua cabeça”. Então, Mariana voltou para a Bahia e passou dois meses na camarinha, aprendendo as coisas, limpando a casa, banheiro, fazendo o que toda filha de santo faz.

“Tudo que vale na vida é você se dar com as pessoas, independente de quem elas sejam”

VBE como foi sua adolescência?

Paloma – Com 16 anos, eu já frequentava as festas de largo da Bahia, que eram muitas, tomando umas cervejinhas. E a gente só ia para casa lá pelas 4, 5 horas da manhã. Sempre íamos dormir na casa dos pais mais condescendentes, no caso, era Mirabeau e Norma Sampaio, pais de Maria Sampaio.

Mas quando terminavam as festas, nós íamos para a rampa do Mercado Modelo comer e não ter ressaca no dia seguinte. Junto com o pessoal da estiva. Eu comia meu sarapatel com bastante pimenta e farinha. Me lembro bem que teve uma vez, estávamos na Rua Rui Barbosa, quando a alguém me falou: “Sabe quem é aquela ali? É Pulguinha, a puta mais conhecida da Bahia”. Eu fui lá conversar com ela e conversamos horas. 

Pra mim, o que mais vale na vida é você se dar com as pessoas, é conhecer as pessoas que estão ali, ao alcance de sua mão, independente de quem elas sejam.

VBJorge Amado também gostava de aprender com o povo…

Paloma – A coisa que ele mais gostava era descer a Rua Chile a pé, com Mirabeau. Passava um desconhecido, batia no ombro dele e dizia, “fala, Jorginho”. E ele dizia pra Mirabeau: “é Vadinho, aquele outro é Pedro Arcanjo, todos meus filhos”.

Foto: João Lins

VBE o 2 de Julho? Era uma festa importante pra você?

Paloma – Nós estudamos sempre em colégios públicos. Antes do Aplicação, eu estudei no Manoel Devoto, onde, toda semana, catávamos o hino ao 2 de Julho. Eu não sou baiana por pouca coisa, não. Eu sou baiana de entender o que o nosso hino diz. Sem nenhuma dúvida, eu vejo a liberdade do Brasil através dessa data. Liberdade que a gente conquistou, liberdade que se deveu ao povo baiano. Mas vejo essa liberdade meio entre aspas, porque nosso povo sofre de tanta fome, e com fome ninguém é livre.

VBVocê participava da festa?

Paloma – Tenho uma vivência do 2 de Julho, única e especial, porque mamãe nasceu em 2 de julho. A primeira vez que papai a trouxe para a Bahia foi exatamente em 1o de julho de 1945. Eles ficaram hospedados num hotel próximo aos festejos e, na manhã do dia 2, foram acordados com as salvas de tiros de canhão. Mamãe, assustada, perguntou a papai: “mas o que é isso?”.

Ele, brincando, respondeu: “fui eu quem mandei fazer essas salvas de canhão para você” e ela, sem entender nada, retrucou: “salvas de canhão pra mim?”. Foi, então, que ele explicou: “você se diz paulista, italiana, mas você é mais baiana que todos, pois você nasceu no dia da Independência da Bahia”. Então, pra mim, além de tudo, o 2 de Julho representa certa amorosidade. Eu desfilei no 2 de Julho. É a única coisa arraigada de civismo que tenho dentro de mim é o 2 de Julho, quando andei pelas ruas da Bahia, cantando, marchando. Todos nós sempre prezamos essa data.

“O 2 de Julho é a única coisa arraigada de civismo que tenho dentro de mim”

VBO 2 de Julho evoca a representatividade do caboclo e da cabocla. Sua família tem alguma relação com indígenas?

Paloma – Total, porque a minha avó Eulália, mãe de papai, era Pataxó. A mãe dela, minha bisavó Emília, avó de meu pai, foi caçada a laço, com 11 anos de idade, por um comerciante da região do sul da Bahia. A minha vó contava isso. Muita gente da família não falava sobre isso, porque não queria ser índio.

Mas a minha vó contava isso e tinha muita raiva do pai dela, que foi quem caçou a mãe a laço. Ela dizia: “esse desgraçado pegou mãe a dente de cachorro”. Porque diziam que se soltava os cachorros em cima dos índios. Minha vó Eulália era bem índia, tinha as feições indígena, aquele cabelo preto, bem liso.

Os primos de papai falavam que a avó deles índia, a Emília, era uma fera. Eu sempre soube que era bisneta de índio. E meu pai tinha um orgulho enorme disso, porque ele queria e gostava muito da mistura no sangue dele.

VBEssa mistura é do sangue índio, branco, negro…

Paloma – Já pelo outro lado, o lado Amado, meu avô João era bisneto de escravo. Contavam que o português, Amado, foi com a filha comprar um escravo para ela. A filha escolheu um guapo rapaz, por quem se apaixonou e de quem engravidou. Então, meu tataravô foi um escravo comprado por sua esposa. Meu avô era bem mulato. Toda a família Amado que eu conheci era mulata. Isto é, somos misturadíssimos. E, ainda por cima, do meu lado, ainda tive a italianada toda, os toscanos, os venetos, então somos bem mestiços, graças a Deus.

Jorge Amado, Zélia Gattai e os netos / Foto: Acervo Zélia Gattai - Fundação Casa de Jorge Amado

VB Sua casa era frequentada por gente famosa, até por Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Você tem muitas histórias…

Paloma – O João Ubaldo era uma pessoa sensacional, amigo querido e muito engraçado. Inclusive a Companhia das Letras deve lançar, em breve, um livro que eu e Bete Capinan organizamos com as cartas trocadas entre ele e papai. Quando papai já não atendia mais ligações, nem conversava mais com os amigos, João ligava às 3 horas da manhã pra contar piadas na secretária eletrônica. De manhã, quando mamãe via as mensagens, colocava para o papai ouvir e, aí, o papai ria.

Com Glauber Rocha, teve muitas histórias. Papai foi padrinho do casamento dele com Helena Ignez. Ele me disse que colocou o nome da filha dele Paloma em minha homenagem. Ele até me chamou para compor o elenco de Idade da Terra, mas na época eu estava casada e meu marido, Pedro, achou que eu não devia. Mas sempre quis ser atriz.

Com João Gilberto, também, tem várias histórias, e papai acabou sendo padrinho de dois casamentos dele, com Astrud Gilberto e com Miúcha. No segundo, papai terminou sendo o avalista, porque o pai de Miúcha, o Sérgio Buarque de Holanda, não queria o casamento, porque achava o João maluco. Papai, então, escreveu uma carta ao Sérgio, avalizando o casamento que acabou acontecendo e papai foi novamente padrinho.

“Minha mãe era uma mulher única, não era uma pessoa comum”

VBFale um pouco da sua mãe, Zélia Gattai

Paloma – Foi uma pessoa que se fez sozinha. Tinha muita influência dos italianos dela, sobretudo da parte anarquista, que tendeu depois a ser comunista. Minha mãe, como os irmãos dela, só estudou o primário. Quis estudar adiante, mas as freiras do colégio acharam que, por ela ser anarquista, não deveria ser aceita.

Ela nunca se conformou, e foi fazendo cursos, estudando durante toda a vida. Ela era uma mulher única que se voltou para o grande amor da vida dela, 

meu pai, e nada era mais importante do que aquilo. Uma fotógrafa extraordinária, não era uma pessoa comum. Quando falavam aquela frase horrível de que atrás de um grande homem tem sempre uma grande mulher, papai sempre dizia: “A Zélia sempre andou comigo de mãos dadas, lado a lado”.

E assim a minha mãe caminhou. Virou uma grande feminista? De jeito nenhum. Ela tinha preconceitos enormes, que manteve até o fim da vida, embora tenha se liberado de muita coisa por ter vindo morar na Bahia. Por ter se tornado baiana. Papai costumava brincar com ela, dizendo: “minha filha, você é baiana, você é mulata”. E ela: “de onde, Jorge, do Vêneto ou da Toscana?” E ele brincava: “olha só o tamanho da sua bunda. Só pode ser baiana”.

Jorge Amado, João Jorge, Zélia Gattai e Paloma / Foto: Acervo Zélia Gattai - Fund. Casa de Jorge Amado

One Response

  1. Uma preciosidade. A Paloma traz nas veias o bom sangue italiano apimentado pelo sangue baiano resultando numa alegria unica de viver, como.pode se observar da forma de falar sobre o grande Jorge e sua fidelissima alma gemea Zelia, e alguns de seus adoraveis amigos. Um show de baianidade que traz saudades e faz dorido meu coração.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Leia Também

Esmola Cantada para São Cosme e Damião, uma tradição popular mantida pelos devotos dos santos gêmeos em algumas regiões do Recôncavo Baiano
O longa “Meu nome é Gal”, das diretoras Dandara Ferreira e Lô Politi, traz a vida e a carreira de uma das maiores artistas brasileiras
Conto inédito do poeta e compositor Braulio Tavares com toques de realismo fantástico numa história de vingança à moda baiana. Ilustrado por Paulo Setúbal