Edição 03
Mar/Abr
2024

José Carlos Capinan

Foto: Sonia Carmo/ Jornal da Pituba

A bênção, mestre!

O poeta viramundo da Tropicália

José de Jesus Barreto

Na foto de capa verde-amarela do icônico elepê “Tropicalia ou Panis et Circencis”, lançado no ano inapagável e infindo de 1968, estão no alto Os Mutantes (Rita Lee e os irmãos guitarristas Arnaldo e Sergio Batista, quase meninos), Tom Zé segurando uma sacola de couro, Caetano Veloso mostrando um quadro/foto de Nara Leão, o maestro Rogério Duprat com um penico na mão, Gilberto Gil sentado no chão de roupão colorido segurando a foto do poeta baiano José Carlos Capinan, Gal Costa e, à esquerda dela, Torquato Neto, de boina e terno, pernas cruzadas. O disco era um manifesto do revolucionário movimento músico-comportamental conhecido como Tropicalismo ou Tropicália, que teve essas figuras como cabeças-pensantes e agentes, e estendeu-se como motivação e chama ardente à criação artística – expressas no cinema, literatura, artes plásticas, teatro, além da música e atitudes, óbvio.

Mulato, brasileiro, nordestino, sim senhor

O trio tropicália: Torquato Neto, Caetano Veloso e José Carlos Capinan / Foto: Arquivo

Capinan e o piauiense Torquato Neto foram, sem dúvida, os grandes poetas/vates da Tropicália. Torquato, um radical angustiado, não aguentou a ‘barra pesada’ dos anos de chumbo e se foi mais cedo, aos 28 anos, em 1972. Capinan resistiu, escolheu as veredas da música como trilha de salvação, sua expressão de vida e alma, poemas em canções, quis sua mensagem cantada, ecoante. Varou o breu dos tempos versejando em parcerias com Jards Macalé (“Gothan City”, “Movimento dos Barcos”), compôs mais de 10 canções/sambas com o mestre Paulinho da Viola, lançou com Geraldo Azevedo, em 1981, o sucesso “Moça Bonita” e, com o violão de Geraldinho, recitou baixinho e sentido o belíssimo poema “Te Esperei”, puro lirismo. Em 84, compôs a badalada “Papel Machê”, com João Bosco.

Escreveu livros-poemas, que lhe levaram à imortalidade da Academia de Letras da Bahia, como “Inquisitorial”, “Confissões de Narciso” e “Poemas – Antologia e Inéditos” (entre 1995/96); depois, “Vinte Canções de Amor e um Poema Quase Desesperado” (2004), “Estrela do Norte, Adeus” e “Os Seres e as Cores nas Terras do Sem Fim”.

Mulato brasileiro nordestino, sim senhor, bem assumido, embrenhou-se nas lutas históricas de libertação do povo negro, sobretudo no contexto baiano de resistências e identidades, único, com seu rico Recôncavo de chulas e sambas-de-roda, terreiros de candomblé, búzios, malês e a ginga rasteira da capoeira Angola.

Capinan e Jards Macalé, parceiros desde a revolucionária Gothan City (1969)/ Foto: Arquivo

Lembro-me dele, voz embargada, lágrima nos olhos, lendo orgulhoso o discurso de posse de Stella de Azevedo, a Mãe Stella de Oxóssi, na Academia de Letras da Bahia – a yalorixá, com as vistas cansadas, pediu que ele, filho da casa, lesse –, o clássico, nobre e colonial espaço repleto de pretos e marrons e brancos, todos baianos misturados vestidos de branco, o palácio das letras tomado pelo “povo de santo” do Ilê Axé Opô Afonjá, terreiro de Ketu-Nagô fundado em 1910 por Mãe Aninha. Coisas que só se vê na Bahia. 

Com o santamarense Roberto Mendes, música gravada por Maria Bethânia, Capinan compôs a bela “Yayá Massemba”, onde canta a resistência, a partir da escravidão, em clima de “vou aprender a ler pra ensinar meus camaradas”, com fortes versos de resgate da história, como seu refrão:

O batuque das ondas nas noites mais longas/ Me ensinou a cantar/
Ê semba ê ê samba á/ Dor é o lugar mais fundo/É o umbigo do mundo/
É o fundo do mar/ Ê semba ê ê samba á

Sonhar é preciso, viver...

Com a amiga Maria Bethânia, quem deu voz pela primeira vez ao baião “Viramundo” (1965)/ Foto: Arquivo

Nessa vertente de luta de resistência, resgatando e buscando preservar identidades, Capinan criou e hoje é o presidente de honra do Muncab – Museu Nacional de Cultura Afro-Brasileira, localizado num casarão antigo do Centro Histórico de Salvador. Era comum ver ‘outro’ Capinan almoçando no antigo (hoje fechado) restaurante Mini Cacique, na rua Ruy Barbosa, perto do local de trabalho, a falar dos planos, projetos e dificuldades enfrentadas para implantar o Museu Afro, um majestoso sonho, realidade.

Desde o começo da pandemia da Covid, por questões de saúde, Capinan pouco sai de casa, o corpo alquebrado pelas andanças, alegrias e agruras do Deus Tempo. Passou dos oitenta, queremos mais. A mente continua acesa, atenta:

“… a gente passou de uma fase de subversão cultural à subvenção cultural. Então, a gente acha o Estado uma péssima madrinha, mas exige do Estado que ele seja o pai cultural. Quer dizer, isso de uma certa forma alicia a crítica; o espírito crítico cultural fica um pouco derivado”.  Mas não alimenta lamúrias: “A cultura tem uma face subterrânea que não acontece claramente pra gente”. 

Ou seja, tudo está em movimento, perenes mudanças. Ecoa um grito cantado no raiar da Tropicália: “É preciso estar atento e forte/Não temos tempo de temer a morte” (Gil). 

Axé (força primal), porque estar vivo é ter os olhos abertos, espiando. O poeta dorme, sonha de olhos abertos e mente liberta, atento ao redor, além…

Régua e compasso

José Carlos Capinan, poeta, músico-compositor, teatrólogo, publicitário e médico, acreditem, além de também imortal da Academia de Letras da Bahia, nasceu no dia 19 de fevereiro de 1941, no Arraial das Pedras, distrito de Entre Rios, mas foi registrado em Esplanada, no sertanejo nordeste baiano.

Chegou a Salvador de trem e com os pertences numa mala de couro forrada, em 1960; a cidade num momento cultural fervilhante, a UFBA do reitor Edgard Santos borbulhante, produção de ponta nas escolas de Música, Teatro e Artes Cênicas, Belas Artes, Dança, Literatura. A capital da Bahia em destaque nacional pela sua ousada negritude, a baianidade em alta, o E.C.Bahia primeiro Campeão Brasileiro, o cinema novo, o Vila Velha, a discussão política, a arte e a cultura popular como manifestações revolucionárias e identitárias de um povo miscigenado, diferente.

O poeta desfralda a bandeira, mente liberta, atento ao redor/ Foto: Andrea Fiamengui

É nesse clima e ambiente que chega o ‘matuto’ acanhado Capinan, já brincando de poesia desde os 16 anos, por inquietudes e sentidos aguçados. Logo se encaixa nesse ‘novo mundo’, via movimento estudantil, integrando-se ao CPC – Centro Popular de Cultura (da União Nacional dos Estudantes – UNE), onde conheceu e tornou-se amigo de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom Zé, Waly Salomão. 

Foi essa Bahia buliçosa e instigante que lhe deu régua e compasso.

Era um, era dois, era cem...

Nos tempos dos festivais de MPB da Record, que mudaram os rumos da música brasileira, Capinan já estava em São Paulo e no olho do furacão. Em 1965, compõe com Gil a música ‘engajada’, de protesto, “Viramundo” – ‘Sou Viramundo virado, pelo mundo do Sertão/ e ainda viro esse mundo/ em festa, trabalho e pão’.

O sertanejo retado que brinca com a poesia desde os 16 anos Foto: Sonia Carmo/Jornal da Pituba

No 3º Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record/SP, em 1967, a música “Ponteio”, composta em parceria com Edu Lobo e defendida por Marilia Medalha, ganhou o primeiro lugar, pondo o nome do poeta baiano Capinan na fita: “Era um, era dois, era cem, era o mundo chegando e ninguém…

Nesse mesmo festival, “Domingo no Parque” de Gilberto Gil obteve o segundo lugar; “Roda Viva” de Chico Buarque ficou em terceiro; e “Alegria, Alegria”, a primeira desbundante canção-manifesto da Tropicália, de Caetano Veloso, o quarto lugar. A MPB, em 67, rompia a barreira do som. O país fervia, uma panela de pressão, a estudantadanas ruas. 

No mesmo dia do assassinato do revolucionário argentino-cubano Che Guevara nos obscuros da vizinha Bolívia, 8 de outubro de 1967, ele compôs com Gilberto Gil e Torquato Neto uma canção extraordinária (hino/poema) que ainda hoje nos arrepia, passando por gerações, primeiramente interpretada por Caetano Veloso em seu LP de 1968: “Soy Loco por ti, América”.

No lado A do mesmo LP tem o contraponto com a doce e lírica canção “Clarice”, parceria Cae & Capinan.

Soy loco por ti, América

A Tropicália foi um salto, um susto, um grito, um puxão de orelhas, um apontamento em todas as direções. Nada mais seria como dantes. “Miserere Nobis”, canção de Capinan & Gil, com participação rock dos Mutantes e arranjos desconcertantes do maestro Rogério Duprat, foi então a primeira faixa do LP “Tropicália” ou “Panis et Circensis”, lançado em 1968. Era mais que um movimento, uma sacudidela no ‘estabelecido’. Para sempre. Capinan captou:

Estou aqui de passagem/ Sei que adiante um dia vou morrer

De susto, de bala ou vício/ Num precipício de luzes

Entre saudades, soluços/Eu vou morrer de bruços

Nos braços, nos olhos/ Nos braços de uma mulher (…)

Soy loco por ti, América/ Soy loco por ti de amores

Vejam só que coube a Capinan, ainda, por exemplo, ser diretor do Irdeb/TV Educativa e secretário de Cultura no governo democrático de Waldir Pires. Precisava? Nem lhe cabia, o poeta era, é muito maior.  

No calor dos protestos contra a censura ao filme Je Vous Salue, Marie e em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, em 8 de março de 1986, Capinan fez o poema editado numa contracapa do Jornal da Pituba, com ilustração/arte de Rogério Duarte:

Je vous salue, marie/ pela vida que me deste/
numa cama ou numa esquina

Je vous salue, marie/ Sem mistérios concebida/
namorada dos meninos/ carolas e quasímodos/
que trepam nas catedrais/ no repique dos teus sinos…

José de Jesus Barreto, jornalista e escrevinhador

Por tanta gente e poetas por viver

Gilberto Gil

Capinan e Gilberto Gil, parceria de vida regada por música/ Foto: Acervo Gilberto Gil

Conheci Capinan entre 1962 e 1963 quando, estudantes em Salvador, todos em diferentes níveis e graus, ele, eu, Caetano, Tom Zé, Torquato Neto, Waly Salomão, Duda Machado, Álvaro Guimarães, Rogério Duarte, Fernando Batinga e tantos outros vivíamos o dia-a-dia da iniciação nas lides culturais, na política estudantil, nas experiências do sexo, do amor, da aventura de conduzir-nos, num incessante entra-em-beco-sai-de-beco corpoalma a dentro de uma cidade mítica, bela e sensual, de mil histórias antes por outras gentes e poetas vividas e mais outras tantas mil histórias então por outras tantas gentes e poetas por viver.

Éramos todos, ali, um uníssono unissonho de sermos – nos tornarmos gente e poetas a um só tempo. Gente no sentido de indivíduos/átomos do coletivo povo com sua massa material em labuta e luta. (…) Poetas no sentido religioso de mensageiros de Deus, no sentido psicoanalítico de intérpretes dos sonhos, alma psicossocial…

Capinan, como todos nós outros, vivia aquela aventura com a sofreguidão das almas jovens. Vindo de um interior ainda mais agreste, ainda mais nordeste do que o de onde vínhamos eu e Caetano – porque ainda mais longe do mar de águas e de luzes da baía –, Capinan era portador e manifestante de uma alma ainda mais severina, no sentido joãocabralino da palavra.

Mais caprino, mais cismado mais dependurado nas argolas das interrogações, como se elas fossem aquelas gangorras toscas pendendo dos galhos das mangueiras dos quintais das casas no seu sertão. De pensamento arisco, arredio, mais litera(l)riamente desconfiado do que os outros, Capinan viria depositar a palavra nas mãos do seu coração semiárido. A sua poesia estava, então, naquela região do sertão, naquele coração semiúmido e de lá ela se faria escrever e falar.

Mas, no fundo, eu quase arriscaria afirmar que a poesia de Capinan repousa, ainda e eternamente, no caroço de umbu da sua caatinga. Umbu cuja carne é assim meio fibra, meio nervo e um tanto pouca, que ao morder se dá mais parca que farta, com seu doce ancorado em seu azedo, cujo gosto é bom mas exigente e dificultoso, e cujo caroço é duro e traiçoeiro para os dentes.  

A poesia de Capinan distingue, elege e prestigia aquilo/aquele que nele permanece. Aquilo que não se perde nas névoas do delírio(…) Aquilo que, como no sonho acordado do menino, leva-o à exploração das grutas obscuras da fantasia mas o traz sempre de volta ao ser do presente, ao claro recinto do seu quarto — ainda que sob tênue luz de lamparina, iluminado.

(NR: Extraído de Gentes e Poetas, apresentação do livro de poemas Confissões de Narciso, de José Carlos Capinan/ Civilização Brasileira, 1995).

No palabras
en tu boca
besos
Si te puedo
decir amor
No te voy a decir otra cosa
Mi vida
es solamente
Deseo

Capinan

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