Edição 03
Mar/Abr
2024

Marias que nunca se cansam de ter fé na vida

Maria do Carmo, a Carminha, mãe de Milton Nascimento/Foto: Acervo da família

Letras da Bahia

Elieser Cesar

Lima Duarte teve um papel decisivo no destino família do cantor e compositor Milton Nascimento. Calma! Não se trata do ator famoso que interpretou o Sinhozinho Malta, da novela Roque Santeiro, dentre outros personagens inesquecíveis da teledramaturgia brasileira. Trata-se, na verdade, do município homônimo da Zona da Mata de Minas Gerais, assim batizado em homenagem a um político de Barbacena (MG) de grande expressão no período imperial. Naquela cidadezinha mineira, começaria a saga da família biológica do cantor de Travessia, com o nascimento da matriarca, Maria Antônia Nascimento, a Vó Maria, uma mulher pobre, que teve dez filhos e demonstraria de sobra que também tinha a estranha mania de ter fé na vida.

A saga da família por parte materna de Milton Nascimento está contada no livro De Onde Vem Essa Força – A História da Família Nascimento de Minas para o Mundo, escrito por Vilma Nascimento, prima do cantor-compositor, em co-autoria com o jornalista Jary Cardoso, companheiro da autora, e do jornalista e historiador João Marcos Veiga. 

O livro tem a marca do jornalismo literário, ou melhor, do livro-reportagem, com um texto claro, estilo enxuto e uma precisa contextualização da época e dos fatos. É o relato da resiliência de mulheres guerreiras e da resistência de uma raça impulsionada pela força da ancestralidade. A narrativa tem a mesma evocação nostálgica de um álbum de família, de uma resistente família mineira tocada pela música. O título é inspirado na canção Raça (Milton Nascimento/Fernando Brant), que, logo na primeira quadra, constata:

‘’Lá vem a força, lá vem a magia/ Que me incendeia o corpo de alegria/

Lá vem a santa maldita euforia/ Que me alucina, me joga e me rodopia’’

Com essa força mágica, Vó Maria iria enfrentar, com coragem e fé, os inúmeros desafios da pobreza, como se verá no livro de Vilma, Jary e João Marcos. A matriarca casou com José Narcízio Nascimento, o Baiano, homem chegado a farras, cachaça, que batia nela, sumia do lar um bom período e retornava para atormentar a vida da família. Até que Vó Maria não suportou mais tanta consumição e fechou definitivamente a porta de casa para o marido farrista. Também era preciso pensar no futuro dos filhos. Aquilo lá, em Manejo, distrito de Lima Duarte, era vida que preste!

Em meados da década de 30 do século passado, com a cara e a coragem, Vó Antônia embarca no trem com os oito filhos (Maria do Carmo, que virá a ser a mãe de Milton Nascimento; Francisca; Ercília; Dejanira; Jandira, futura mãe de Vilma; Sebastião; Alcides e Teresa) para Juiz de Fora (onde teria mais dois filhos). Naquele tempo, Juiz de Fora era conhecida como a Manchester Mineira, pelo processo de industrialização. Em 1920, era duas vezes mais populosa do que a capital, Belo Horizonte. A cidade atraía um grande número de pessoas da Zona da Mata, como a família de Maria Antônia, em busca de oportunidades de trabalho.

Feijoada completa

1972, Juiz de Fora, MG. Vilma Nascimento (de branco, ao lado de Milton) promove a feijoada que reúne os Nascimento e motivou Vilma a narrar a saga familiar/Foto: Uli Burtin

O livro começa com um momento histórico e saboroso para toda a família do cantor e compositor. Em 1972, Milton Nascimento foi participar, em Juiz de Fora, do V Festival Nacional da Música Brasileira. Então, Vilma teve a ideia de aproveitar a presença do primo ilustre para fazer uma grande feijoada em família, à qual compareceram Milton e sua banda. O regalo veio no capricho, com todos os ingredientes dignos de uma boa feijoada mineira: do porco, pé, orelha, rabo, toucinho e torresmo, mais miúdo para farofa, linguiça, arroz e (é claro) uma boa talagada de cachaça.  A força daquele momento histórico permaneceu viva na memória de Vilma por décadas, alimentando o desejo já antigo de contar quem são e de onde vieram os Nascimentos. Cinco décadas depois, a descoberta de parte do material daquela festa serviu como catalizador para a elaboração do livro de memórias da família Nascimento.

Quarenta anos depois da feijoada, em 2012, num simbólico 21 de abril, dia consagrado a Tiradentes e à Inconfidência Mineira, Milton Nascimento, em companhia de Vilma, voltaria a Juiz de Fora para iniciar a turnê comemorativa dos 50 anos de carreira. Em Juiz de Fora, o cantor e compositor sempre se sentiu em casa. ‘’É onde tenho mais amigo’’, confessou. Também Fernando Brant (1946-2015), o maior parceiro de Milton, costumava dizer numa boa tirada: ‘’Em Juiz de Fora, eu sou de dentro’’.

A mãe biológica do artista que soltou a voz nas estradas sem querer parar, Maria do Carmo, a Carminha, nasceu em 1922. Aos 17 anos, com a mesma determinação da mãe, saiu à cata de um futuro melhor e trocou Juiz de Fora pelo Rio de Janeiro, onde conseguiu trabalho na pensão do casal Edgar de Carvalho e Silva e Augusta de Jesus Pitta, ‘’família que viria ter papel decisivo no futuro de Bituca, menino que Carminha daria à luz depois de admitida naquele lar’’. Carminha fazia de tudo na cozinha e ainda ajudava na arrumação.  Do Rio, mandava dinheiro para a família.

Segundo Ercília, irmã de Carminha, a mãe de Milton Nascimento era muito alegre e (dom de família) vivia cantando. Gostava muito de Ataulfo Alves. “Era uma bênção. Tinha uma voz bonita mesmo, suave, sonora, fininha, e não sabia que tinha, nem a gente dava valor’’, recorda a irmã mais nova. Carminha namorava João, motorneiro da Linha Tijuca. Engravidou dele. Grávida, contou com o apoio da patroa, Dona Augusta, numa época em que o caminho da empregada doméstica prenha era o olho da rua. Em 26 de outubro de 1942, nasce Milton Nascimento, no Hospital-Escola Laranjeiras. Até hoje, no octogenário, Bituca se percebe os traços fortes da mãe.

De Carminha para Lília

Na pensão de Dona Augusta, o menino foi bem cuidado. Ali nasceu também o apelido que Milton Nascimento carregaria pela vida toda, Bituca. A tia Ercília, que trabalhava no lugar conta a origem do apelido. Conforme ela, o apelido foi colocado, pela dona da pensão, inspirado no personagem Pinduca, da revista em quadrinhos. No livro Travessia: a vida de Milton Nascimento, da jornalista Maria Dolores, publicado em 2007, o próprio artista revela outra versão. Ele diz que o apelido foi posto por Lília – filha de Dona Augusta e que viria a ser sua mãe adotiva – porque ele fazia um bico quando ficava emburrado.    

Carminha vai morar com João e o filho pequeno na Baixada de São Cristóvão. Devido à insalubridade do local, contrai tuberculose. Dona Augusta a visitava sempre, preocupada com o menino. Um dia, chega para a ex-empregada e propõe que ela volte para a pensão. Carminha recusa. Mas, com o consentimento da mãe, ela leva Bituca. O estado de saúde de Carminha agrava-se e ela volta para Juiz de Fora. Maria do Carmo morre, jovem, pouco tempo depois. Com a morte da mãe, o menino volta para a família materna, em Juiz de Fora. Isso antes do casamento de Lília, que já nutria uma afeição especial por Bituca.

Casada, Lília não conseguia engravidar e se lembrava muito do menino Bituca. Enfim, toma a decisão. Em companhia do marido Zino, vai de automóvel até Juiz de Fora. A conversa com Vó Maria foi rápida. Eles cuidariam do garoto como de um filho. A adoção consumou-se. Foram morar em Três Pontas (MG). Travessia. 

Casa nova, vida nova. Ao partir para Três Pontas, terra natal de Zino, Milton teve sorte na vida como nenhum outro membro da família Nascimento. “Foi criado – primeiro no Rio de Janeiro e depois em Minas Gerais – em casas onde a música, o cuidado e o estímulo artístico eram constantes, recebendo a base para desenvolver o talento natural e se tornar um dos maiores artistas do mundo’’, assinalam Vilma Nascimento, Jary Cardoso e João Mendes Veiga. Talento que veio logo cedo. 

Milton toca, Vilma canta. A música na veia e na alma da família Nascimento/ Foto: Newton de Matos Vale

Sete anos mais nova do que o primo famoso, Vilma Nascimento também abraçou a música. Os primeiros passos foram ainda menina, quando ela precisava ficar na ponta dos pés para alcançar o microfone em concursos de programas de auditório de rádios de Juiz de Fora. Mocinha, mudou-se para o Rio de Janeiro com o sonho de ser cantora. Ali, começou a fazer shows e excursionou em turnês de Gilberto Gil, Luiz Melodia e Antônio Adolfo. Em 1980, gravou o LP Conquistado, com arranjos de Wagner Tiso.

De Onde Vem Essa Força tem uma grande mulher que funciona como fio condutor da narrativa, Maria Antônia Nascimento (depois da separação, Oliveira), a avó de Milton Nascimento. É o exemplo dela que faz os autores refletirem: “De onde vem essa força que levou Maria Antônia Nascimento, roceira e empregada doméstica, a desafiar um mundo dominado pelos homens e por preconceitos raciais e sociais? De onde vem essa força que a encorajou a migrar de Juiz de Fora, de mala, cuia e oito filhos, a maioria crianças e os mais velhos ainda adolescentes?’’

Eu arrisco uma resposta: dessas Marias, Marias e Marias que nunca se cansam de ter fé na vida.

Elieser Cesar, jornalista e escritor

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