Edição 03
Mar/Abr
2024

Lá vem o padre subindo a ladeira…

Ilustração holandesa da Salvador do século 17 indica a posição do Guindaste dos Padres ligando o Colégio dos Jesuítas na Cidade Alta à Cidade Baixa

Almanaque da Bahia

O Guindaste dos Padres

Esqueça, o Elevador Lacerda nem existia. Subir da Cidade Baixa para Cidade Alta na Salvador do século 17 era, usando uma expressão atual, barril. Quando se tratava de subir mercadorias ou material de construção, passava à condição de sacrifício. Para descer todo santo ajuda. O problema era subir a rampa de 70 metros que separava a Salvador da Cidade Baixa, da Salvador cosmopolita que estava sendo construída na Cidade Alta. Os sábios jesuítas driblaram a dificuldade com a cabeça: criaram o Guindaste dos Padres.

O Colégio dos Jesuítas, fundado por Manuel da Nóbrega, ocupou uma área considerável da cidade no século 17. Uma obra imensa que a crônica da época descreve com muitas salas, oficinas, dormitórios com vista para o mar, escadas, portas, janelas e pedrarias, com varandas, cubículos bem forrados e por baixo lajeados com perfeição. Tudo em pedra, cal e madeira. Muito material para ser transportado.

Tudo que sobe, desce

Por isso, os jesuítas inventaram a peça de engenharia que o povo chamou de Guindaste dos Padres. Não chegou aos nossos dias uma ilustração da geringonça funcionando, mas se sabe que a escarpa foi aplainada em declive e um sistema montado com roldanas e cabos com dois carrinhos em contrapeso deslizava sobre a encosta, enquanto um subia, o outro descia.

O Guindaste dos Padres deu tão certo, que outra ordem religiosa criou seu Guindaste dos Carmelitas para vencer a escarpa entre o Pilar e o Santo Antônio Além do Carmo. Os jesuítas foram expulsos do Brasil, mas a ideia vingou. No local onde existia o Guindaste dos Padres, em 1874 foi instalado o Plano Inclinado Gonçalves para transportar pessoas. A alta tecnologia religiosa do século 17 rende frutos até hoje, quem desce ou sobe da Cidade Baixa para a Cidade Alta viaja na paisagem da Baía de Todos-os-Santos.

Boca do Inferno

Gregório de Mattos (1636-1696) foi o maior poeta barroco brasileiro no século XVII. Desenvolveu uma poesia amorosa e religiosa, mas se destacou por sua poesia satírica, de críticas à sociedade. Patrono da cadeira número 16 da Academia Brasileira de Letras.

Muitos de seus versos são ácidos, satíricos e refletem uma postura crítica à administração colonial – excessivamente localista e burocrática –, à fidalguia brasileira, ao clero moralista e corrupto e a quem mais compusesse a degradada sociedade colonial, o que lhe rendeu o apelido de Boca do Inferno. Por conta da língua afiada, acabou sendo condenado ao degredo em Angola.  Gregório só retornaria ao Brasil, em 1696, no final de sua vida, mas não para a Bahia, e sim para o Recife, onde morreu e foi enterrado como indigente.

Triste Bahia! Oh quão dessemelhante

Estás e estou do nosso antigo estado!

Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,

Rica te vejo eu já, tu a mi abundante.

A ti tocou-te a máquina mercante,

Que em tua larga barra tem entrado,

A mim foi-me trocando, e tem trocado

Tanto negócio, e tanto negociante.

Língua de trapo

Entre a quase centena de jornais publicados em Salvador na segunda metade do século 19 – muitos de vida efêmera e intenções políticas ou confessionais declaradas – está O Alabama, que, no subtítulo, afirmava ser um “Periódico crítico e chistoso, bi-semanal”.

Durou bem mais que a maioria de seus congêneres – de 1863 a 1890. Datado da “Cidade de Latronópolis” e feito a bordo de um mítico navio que dava nome ao jornal – O Alabama – navio que “navegava em terra” um severo censor dos costumes, defensor dos desvalidos, abolicionista e republicano.

Há quase nada registrado sobre o pioneiro matutino, a não ser um estudo de Vicente Deocleciano Moreira, publicado nos anos 80 pelo antropólogo Vivaldo Costa Lima, no folhetim Pelourinho Informa.

Foi uma verdadeira língua de trapo, embora defensor da moral e dos bons costumes. No século 19, o jornal registrava seu preconceito sobre o que acontecia nos becos e ladeiras históricas de Salvador: “Que utilidade terá-se em consentir os sambas desordenados, as casas de jogo espalhadas por aquelas paragens, o ajuntamento de mulheres pervertidas, na mais crapulosa orgia, com ofensa da moral da decência e desacato a lei?”

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