Edição 03
Mar/Abr
2024

Massacre traumatizou os pataxós

Descendentes pataxós relembram com dor e revolta a sobrevivência ao massacre de 51/Foto: Filme “Memória do Fogo de 51”

Luiz Cabral

As mulheres tinham acabado de preparar as crianças para mais uma noite de sono. Os homens da aldeia deram por encerrado o debate acerca das atividades do dia seguinte: plantar, caçar ou pescar? E então, quando o silêncio da madrugada se apoderou da aldeia, uma chuva de balas, seguidas de tochas incendiárias, acordou de súbito a enorme e indefesa Tribo Pataxó de Barra Velha, em Porto Seguro.

Era junho de 1951. Entre dezenas de mortos e feridos (os números, para mais ou para menos, nunca foram devidamente confirmados ou rechaçados por fonte fidedigna) restaram as lembranças traumáticas do que ficou conhecido como o Fogo de 51, episódio sórdido promovido e executado por posseiros em conluio com as forças de segurança da época.

A criação do Parque Nacional do Monte Pascoal, por meio de decreto assinado por Getúlio Vargas em 1943, foi, na verdade, o estopim que deu vazão à barbárie. Resumidamente, o Governo Federal decretava que as terras pertenciam à União e ninguém, nem mesmo os indígenas, tinha direito à posse. Foi o que bastou para que grileiros se voltassem com ainda mais avidez para as terras originárias.

Assim, os pataxós foram proibidos de exercer práticas tradicionais de sobrevivência, como a caça e a pesca, sob a justificativa da preservação ambiental. Sufocados, com fome e instigados propositadamente por invasores brancos, alguns indígenas, de fato, saquearam o armazém do extrativista Teodomiro Rodrigues.

Foi a desculpa que as polícias de Prado e Porto Seguro precisavam para dar veracidade aos boatos de que os pataxós haviam desencadeado uma onda de violência na cidade e, assim, pudessem agir à margem da lei.

Um trapalhão no comando

Sob as ordens do famoso major Arsênio Alves de Souza, comandante das Forças Policiais Volantes na Bahia e temido executor de Ponto Fino, cangaceiro irmão de Lampião, o futuro dos pataxós estava selado. Dois destacamentos foram enviados com a mesma intenção genocida: 14 homens partiram de Porto Seguro liderados pelos sargentos Altino Calmón e Lourival José Santos. De Caravelas, com o cabo Eugênio à frente, outros 15 homens partiram em missão. Numa cena histórica digna de filme pastelão, os dois destacamentos encontraram-se nas proximidades de Barra Velha e, na escuridão da noite, supondo que do outro lado estavam os “caboclos” pataxós, travaram fogo cruzado durante quase uma hora, o que legou ao major Arsênio, articulador da emboscada, o título pejorativo de “MacArthur do Corumbau”, em alusão cínica ao general ianque conhecido por suas estratégias de aniquilação dos indígenas norte-americanos.

A contenda só terminou com a retirada em pânico dos soldados de Caravelas, que na fuga deixaram armas e bagagens naquela que foi a única batalha travada em Porto Seguro, segundo depoimentos de Lourival e Altino.

Vingança banhada de sangue

Em 2018, pataxós manifestaram-se em Brasília, em memória à chacina/ Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Furioso por ter virado motivo de piada em toda a Bahia, Arsênio decidiu “tocar o terror” contra os pataxós. E assim o fez. Preparou nova emboscada e, após tirotear a aldeia durante horas a fio, matando indiscriminadamente, aprisionou e espancou homens, mulheres e crianças, não poupando nem mesmo o cacique “Capitão” Honório Borges, então com 87 anos, fustigado a coronhadas de fuzil.

Para completar o serviço, mandou incendiar toda a aldeia, enquanto perseguia fugitivos mato adentro. Relatos de estupro complementam o cenário de terror e medo da noite que ficou conhecida como Fogo de 51.

Dez anos depois do massacre, em 1961, ocorreu a implementação física do Parque Nacional de Monte Pascoal, com um total de 22.500 hectares de área. Mais uma vez, os pataxós não foram contemplados com a devida demarcação das terras, o que ainda hoje provoca conflitos entre indígenas e posseiros, madeireiros e fazendeiros de cacau.

O antropólogo Ramon Rafaello, da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), em parceria com Karkaju Pataxó, liderança indígena da aldeia Pataxó de Coroa Vermelha e membro da Coordenação de Pesquisa Atxôhã, produziu o documentário Memória do Fogo de 51.

Por meio de depoimentos de indígenas que ainda crianças sobreviveram ao ataque escondendo-se na mata, o filme resgata, em detalhes, o que foi o massacre perpetrado no extremo sul da Bahia. Nele, fica evidente que, nestes mais de 500 anos, nem tudo foi sempre festa e alegria na Terra do Achamento do Brasil. O filme está disponível nos canais do YouTube.

Fontes: Colecionador de Sacis (Andriolli Costa), Site IBahia,
@Nupomar – Documentário Fogo de 51, Teixeira News

Luis Cabral, jornalista

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